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O desafio de ser você mesmo em uma sociedade que te rotula

ser você mesmo

Recentemente recebi a indicação de um livro chamado “Sendo você, mudando o mundo”, e achei que estava na hora de escrever um texto unindo dois dos meus temas mais comuns: depressão e micropolítica.

Fala-se muito que a atual geração é “ativista de sofá”, é “muito problematizadora”, e exige-se muito que se tenha um “propósito de vida” ou “trabalhe para a transformação do mundo”. Acontece que somos “apenas” poeira das estrelas: parte integrante da vida coletiva e de seu sagrado, porém apenas parte deles. Criar expectativas de transformação mundial sobre uma pessoa é objetificante (a Bárbara do Seu Movimento fala sobre isso neste vídeo) e pode causar transtornos.

O desafio de ser você mesmo

Imagine a seguinte situação: Maria cresce ouvindo que ela pode ser o que quiser, que pode fazer o que quiser, mas que sua geração é decepcionante, folgada e ativista de sofá. Ela acredita que a educação no país deveria ser melhor e começa a trabalhar por isso. Pressionada pelo discurso transformador das redes sociais, acredita que nunca está fazendo o suficiente, e vai resumindo sua vida a apenas trabalhar. Não há tempo para se alimentar bem, não há tempo para tratar bem o cobrador do ônibus, não há motivo de manter amizades com quem não está como ela trabalhando para uma tal de transformação.

ser você mesmo

Ao atribuirmos propósito a uma pessoa, a uma vida, nós a objetificamos, tiramos dela exatamente sua essência de pessoa, de ser pensante, sua individualidade. Se o propósito de alguém é, por exemplo, transformar a educação, então não há motivo ou espaço para que ela aprenda crochê, passe uma tarde de bobeira com seus amigos ou até, por uma outra perspectiva, aja de maneira sustentável no micro. Cria-se uma pressão para que ela atinja um meta inatingível individualmente, o que a distancia dos outros e das infinitas possibilidades de quem ela poderia ser. Torna-se a pessoa uma ferramenta, uma máquina de trabalho.

Aliando essa ideia de propósito de vida com as inúmeras críticas acima apontadas, criamos pessoas que se cobram além do razoável, trabalham para além dos seus limites, desrespeitam a si mesmas e, consequentemente a quem está ao seu redor, diminuindo o papel das emoções e dos sentimentos. Mas a Maria nunca conseguirá sozinha transformar a educação, e o microcosmo sobre o qual ela de fato tem grande influência (família, amigos, escolhas pessoais) parece-lhe pequeno demais. Ela aprendeu e sente que tem uma enorme dívida moral, e tenta externalizá-la em grandes projetos que sempre têm novos buracos e problemas. Daí para o desenvolvimento de uma doença, depressão, ansiedade ou burnout é apenas um pulinho.

Leia mais: Como a prática do silêncio pode modificar a sua vida

O que fazer?

Não é questão de não se responsabilizar ou de não assumir o seu papel na coletividade, pelo contrário. Talvez o mais saudável seja apenas compreender que estamos todos no mesmo barco, todos temos demandas pessoais, e grande parte da vida é conseguir nos aceitar nesse equilíbrio dinâmico de uma busca que nunca vai chegar em uma solução concreta e definitiva.

Trabalhar pelo que acreditamos é essencial, mas respeitar nossos corpos e tempos também. São necessárias pessoas saudáveis para a construção de espaços e estruturas saudáveis, é necessário o diálogo e o dissenso para que aprendamos e nos aprofundemos. Precisamos ampliar nosso campo semântico e ter novas experiências até mesmo para sermos criativos e melhorarmos nossa atuação no dia a dia.

É hora de nos mobilizarmos e agirmos pelo mundão desvairado lá fora, mas sem nunca esquecer que precisamos trabalhar também em nossas próprias vidas.

Amanda Matta
escrito por:Amanda Matta
Filha de Ogum e Oxum, estudante de tudo que pode nos levar ao reenvolvimento: educação, política, meio ambiente, nutrição, cultura, espiritualidade. Paulistana de sangue mineiro e alma pernambucana, vive entre uma comunidade ribeirinha no Pará e uma tentativa de agrofloresta no interior de São Paulo.

1 Comentário

  • Conhecer uma proposta nova, de ingressar no caminho do Yoga integral, numa ética saudável, na qual podemos nos reconhecer como filhos do néctar, do suave Espírito sat-cid-ananda, pode ser a resposta a tudo isso. Ver a Vida como Ela é , o Bem puro, Ver-se seu físico como energia, formada de alegria e luz. E se contemplar realmente como um ser multidimensional, fora de todo aparato de ignorância,, gerada por um mente limitada, que prega as inúmeras possibilidades, mas aceita o desarmonia como Real. A única desarmonia que pode haver está em nós. Somos e vivemos o que geramos com a nossa mente. Se seguimos uma ética divina,, mudamos e simultaneamente o ambiente no qual vivemos muda também.
    Uma fé pura no Bem, no Bom e no Belo, se faz necessária para tal aquisição de consciência e consequentemente de uma mudança em seu entorno.. Abrir a mente completamente ao Sagrado que tudo manifesta, que tudo é, permeia, é sua base e a tudo governa, é a proposta que, quem sabe, pode dar alívio a todos os buscadores.

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