Jardim do Mundo
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Quem nunca reclamou quando sua casa estava muito mofada ou que os fungos atacaram seu pedaço de bolo?? Esses seres vivos estão por toda a natureza e suas várias espécies estão espalhadas por aí, desde o bolor do bolo até o cogumelo que nasceu no jardim. Falando em cogumelo, eles existem aos milhares, em diferentes formas e cores, sendo que vários são comestíveis, de acordo com vários estudos. Alguns são utilizados junto com a comida, como o champignon, já outros são utilizados por algumas culturas para elevação espiritual, como o Psilocybe cubensis. Mas é pouco comum ouvir que podemos usar fungos para pintar. Sim! Podemos extrair pigmentos deles e usar para tingir tecidos ou mesmo para pintar em papel!

Em novembro do ano passado participei da 14º Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão (Sepex) na UFSC de Florianópolis. Este é um evento que acontece todo ano na UFSC e tem como objetivo expor à comunidade acadêmica e ao público em geral os projetos que os cursos da UFSC estão desenvolvendo. E foi nele que encontrei esse projeto lindo de extração de pigmentos dos fungos, conhecido também como micopigmentação. O projeto está no início de seus estudos, mas ele já ofereceram um curso na Semana da Biologia de 2015, na UFSC de Floripa,  falando sobre o projeto e explicando como é feita essa extração, além de terem se apresentado na Sepex.

O projeto é desenvolvido pelo Laboratório de Micologia (MicoLab) e tem como coordenadores a Profª. Drª. Maria Alice Neves e o Prof. Dr. Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos. E foi com a Profª Maria Alice com quem fiz uma série de perguntas sobre o projeto e sobre como é a extração dos pigmentos. Ela foi super-atenciosa e me respondeu a todas as perguntas, então abaixo segue a pequena entrevista:


– Como surgiu essa ideia de extrair pigmentos de fungos? Quem foi a pessoa, historicamente que criou esse processo?

A primeira pessoa a trabalhar com extração de cores de fungos foi a artista plástica estadounidense Miriam Rice. Ela participava de‘forays’(incursões para coleta de fungos e discussão sobre micologia) e era amiga do Dr. Harry Thiers, da Mycological Society of America. Ela publicou livros sobre o assunto e desenvolveu, além dos pigmentos, papel a partir de fungos e giz de cera de abelha usando pigmentos de fungos (há bastante informação sobre ela na internet: http://www.mushroomsforcolor.com/Mushrooms_for_Dye-book.htm, http://sonic.net/~dbeebee/web_mush-history.htm, http://mycopigments.com)

Eu tive contato com os livros dela pela primeira vez quando estava fazendo meu doutorado no New York Botanical Garden. Meu orientador foi o Dr. Roy Halling que foi aluno do Dr. Harry Thiers, que foi quem introduziu o mundo dos fungos para Miriam Rice!

– Posso usar qualquer cogumelo para extrair o pigmento? Por quê? Se não, quais cogumelos não posso usar?

Teoricamente qualquer fungo pode ser usado para extração de corantes, porém há espécies que têm cores vibrantes que podem ser extraídas, enquanto outras não têm cores fortes ou os corantes não são facilmente extraídos e por isso não funcionariam bem. Não há nenhuma contraindicação por questão de toxicidade, mas algumas pessoas podem ser alérgicas, como com qualquer outro organismo, por isso é recomendada a utilização de luvas se você estiver fazendo a extração pela primeira vez. A extração pode ser feita partindo o fungo em pedaços pequenos e colocando os pedaços em um recipiente com álcool ou água quente, obtendo assim o líquido que pode então ser utilizado de diversas formas.

– Qualquer um pode fazer essa extração e colorir seus tecidos? É fácil de fazer o processo?

O processo é relativamente fácil, mas como o procedimento nunca foi feito ou testado com fungos do Brasil, os resultados são ainda desconhecidos para as nossas espécies. São necessários mais testes com mordentes e com o processo de fixação também para que o produto tingido não desbote.

– Todos os tipos de tecidos podem ser tingidos?

Os tecidos de origem animal, como seda e lã, têm maior afinidade aos corantes extraídos dos fungos. O algodão tende a desbotar quando lavado e tecidos sintéticos não coram bem. No papel os corantes são bem absorvidos e podem resultar em lindas aquarelas.

– A coloração fixa bem no tecido?

Particularmente nós ainda não fizemos muitos testes com a fixação da cor na lã. O processo para fixar que temos usado é o tratamento das fibras (tecido ou lã) com sal de cozinha como um mordente antes do processo de pigmentação.

– O pigmento extraído vai ter exatamente a cor do fungo do qual ele foi extraído?

Não necessariamente, e quando terminamos o processo essa é uma boa surpresa! Pycnoporus sanguineus é uma orelha de pau bem comum e conhecida porque tem uma cor alaranjada vibrante (Foto abaixo). No processo de extração em álcool o pigmento é mais fraco e o resultado é uma coloração alaranjada suave e muito bonita. Espécies de Suillus (um cogumelo exótico introduzido no Brasil junto com os Pinus) são marrom-oliváceas, mas o pigmento extraído delas é amarelo cítrico!

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– Levando em conta que é difícil encontrar fungos de todas as cores, existe alguma técnica para extrair cores diferentes de um mesmo fungo ou pigmento? Qual?

Sim! A química das cores é incrível e esses corantes variam de tonalidades e de cores dependendo do pH. Sendo assim, podemos adicionar um ácido (como vinagre) ou uma base (como bicarbonato de sódio) ao produto da extração e alterar a coloração. Um bom exemplo é a extração feita do fungo Pisolithus (fungo exótico introduzido com os Pinus) (Foto abaixo), onde a cor pode variar de verde oliva a marrom passando por tons de roxo.

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– Como iniciou o projeto de estudos de extração de pigmentos dos fungos no Micolab?

Como eu sempre admirei o trabalho da Miriam Rice decidimos fazer testes e ‘brincar’com as cores usando o livro da Miriam como base. Oferecemos o primeiro workshop de micopigmentos durante a Sepex de 2012 e gostamos dos resultados. A segunda edição foi durante o Rick Foray de 2013, evento realizado pelo MICOLAB e a última edição foi durante a Semana da Biologia da UFSC de 2015 (Foto abaixo). Os parceiros que colaboram nos cursos são alunos de graduação e de mestrado do MICOLAB.

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– Como andam os estudos, por parte do grupo/laboratório de vocês, do uso dos fungos para extração de pigmentos? E quais são os próximos estudos ou práticas a respeito da micopigmentação?

Os cursos foram criados como cursos de extensão e não fazem parte de uma linha pesquisa do MICOLAB, pelo menos por enquanto. A ideia dos cursos teve início como uma atividade divertida que ajuda a chamar a atenção para o Reino Fungi e para os organismos que estudamos. O foco do laboratório são as pesquisas com coletas e identificação de alguns grupos de fungos e o estudo da relação entre eles (sistemática e evolução). Além disso nos dedicamos também a divulgar o conhecimento sobre os fungos e evidenciar a importância da conservação as espécies e dos ambientes onde elas vivem. Durante os cursos abordamos aspectos importantes sobre o papel dos fungos no ambiente e sobre como coletar para evitar que o ambiente seja prejudicado.

– Quem são os integrantes desse projeto e o(s) coordenador(es)?

Eu coordeno os cursos que damos com a participação de alunos do MICOLAB. Dividimos as tarefas, fazemos testes com os fungos que vamos utilizar e discutimos a parte teórica, que é importante para a divulgação da biologia dos fungos e para a conservação das espécies.

– O micolab pretende dar algum minicurso ou workshop sobre como fazer a extração e coloração utilizando os fungos? Se sim, quando?

Em 2016 provavelmente haverá um curso antes ou durante o VIII Congresso Brasileiro de Micologia, que estamos organizando e será realizado na UFSC de 3 a 6 de outubro, no Centro de Convenções (FOTO 4). Mais detalhes sobre a data e a forma de inscrição serão divulgados quando tivermos a programação do congresso.

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Obs: Se quiser falar sobre mais algum assunto relacionado ao tema, e que não estava nas perguntas, sinta-se livre.

Infelizmente o importante papel que os fungos têm nas nossas vidas não é muito conhecido pela maioria das pessoas.

Como o blog se chama Jardim do Mundo, a referência aos fungos é muito importante! Eles têm um papel extremamente importante no solo de todas as florestas e são importantes na ciclagem de nutrientes, disponibilizando moléculas que servem de alimento às plantas. Os fungos habitam o solo dos ambientes formando uma rede de conexão invisível ao olho nu –o micélio– que ajuda na fixação do solo evitando erosão e auxiliando a transferência de nutrientes entre organismos através da associação com raízes de plantas.


Abaixo está o passo a passo de como podemos extrair os pigmentos dos fungos. Este passo a passo foi feito pelo pessoal do MicoLab e é disponibilizado em forma de folder:

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Para quem ficou interessado no assunto abaixo divulgamos alguns links interessantes:

Micolab → Clique aqui
VIII Congresso Brasileiro de Micologia – 2016 → Clique aqui

Outras fotos de enviadas pelo MicoLab de minicursos sobre a extração de pigmentos dos fungos:

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Charlene Peruchi
escrito por:Charlene Peruchi

Uma sonhadora, que acredita num mundo melhor e nos seres humanos vivendo em harmonia com a Natureza. Amante da fotografia, do artesanato e de músicas incomuns, diz que não viveria por muito tempo sem a arte na sua vida. Vegetariana por amor ao próximo e praticante de Yoga por amor a si. Em resumo, é um ser complexo que gosta da vida simples.

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