Vida Natural

PEADS: uma educação para a comunidade

PEADS

Um grupo de educadores da Educação Popular em meados do século passado percebeu, em sua trajetória por comunidades no Brasil, dois paradoxos normalizados:

1 – as lideranças comunitárias com frequência eram as pessoas com sua próprias vidas mais desorganizadas;

2 – as escolas produzem conhecimentos que não tem valor para suas comunidades, enquanto as comunidades não tem dinheiro para contratar quem produza os conhecimentos que elas precisam.

Para alterar essas duas realidades, estes educadores, que hoje compõe o SERTA (escola rural em Pernambuco) criaram a PEADS: Proposta Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável, uma metodologia de atuação em escolas para a transformação da sociedade.

Escola como produtora de conhecimentos

O fundamento dessa proposta é: cada aluno passa 4h por dia, 200 dias por ano dentro da escola, totalizando 800 horas de produção de conhecimentos por aluno por ano. Se esses conhecimentos forem focados em assuntos desconexos, há grandes chances de se criarem pessoas com baixa autoestima e que pouco aprendem, desconectadas com suas famílias e realidades.

Mas se esses conhecimentos forem focados em melhorar a comunidade, serão desenvolvidos cidadãos ativos, com engajamento e orgulho de seu entorno, que transformam sua realidade ao invés de tentar abandoná-la ou ignorá-la.

O SERTA vem aplicando essa metodologia e ensinando-a a professores há 30 anos, e transformando diversas realidades. Por conta de seu trabalho, um de seus fundadores, Abdalaziz de Moura, foi homenageado pelo prêmio TRIP Transformadores. Hoje, a participação das mulheres é cada vez maior no SERTA, e Valdiane é uma de suas diretoras, em um grupo formado por presidente e diretores ex-alunos.

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Mas como funciona a PEADS?

Etapa 1: o que já sabemos ou podemos pesquisar?

O primeiro passo de qualquer etapa educacional, de acordo com o PEADS, é “ver, observar, levantar informações, pesquisar, identificar os primeiros conhecimentos que as pessoas já têm sobre um objeto”. Para isso, é feito um roteiro de pesquisa para os alunos levarem para casa, com dados censitários sobre população, economia e ambiente da comunidade e, claro, da própria realidade: família e entorno próximo. Para a realidade rural, são perguntas como: “quantas pessoas na comunidade”, “quem vai fazer o plantio”, “qual o tamanho das propriedades”, “quem já fez colheita”, “de onde vem as águas da propriedade”.

Esse roteiro incorpora vários conceitos, aproveita-se a lição de casa para que o aluno produza dados relevantes para a comunidade, para que envolva sua família e pessoas da comunidade. É uma forma de gerar engajamento dos alunos com seu entorno e de valorizar a comunidade. Como outra consequência, a equipe docente passa a conhecer melhor cada um de seus alunos. O aprendizado parte dos sentimentos e sentidos. Os resultados poderiam ser apresentados no formato que deixasse o aluno confortável: em texto, desenho, oralmente.

Etapa 2: aprofundamento

“Analisar, desenvolver, desdobrar os dados da pesquisa, aprofundar, elevar o patamar do conhecimento trazido pelas pesquisas”. A resposta de cada aluno é essencial, porque cada aluno importa e faz falta no conjunto. Assim, é necessário que todos respondam o questionário e participem da sistematização, reunião e apresentação dos dados do todo. Para essa apresentação, podem ser usados os conteúdos a serem trabalhados no currículo escolar tradicional: mapas, tabelas, textos; e a partir dela há novos trabalhos curriculares: análises, críticas, discussões.

Nesta fase, o convite aos educadores da comunidade é muito bem-vindo: pode vir à escola um senhor que ali sempre morou para contar a história da cidade, um agricultor para explicar as diferentes plantas ou as medidas de um terreno.

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Etapa 3: ação

“Transformar em ação o conhecimento constituído, intervir na comunidade a partir do conhecimento novo, devolver o conhecimento produzido para quem ajudou a gerá-lo”. Esta terceira etapa da PEADS é sua maior inovação quanto às escolas que tradicionalmente trabalham com projetos, pois propõe a devolução do conhecimento gerado em ação comunitária.

Nesse momento, é essencial convidar a comunidade para ir ao aluno conhecer os produtos dos aprofundamentos realizados pela classe, ou ir até a comunidade apresentá-los. Isso pode ser feito em forma de teatro, gráfico, livro ou qualquer outra, a depender dos desejos, talentos e capacidades da turma; o essencial é gerar engajamento do público, levantando discussões e criando espaços para a escuta.

Etapa 4: reflexão

“Autoavaliar e heteroavaliar os processos, os conteúdos, as pessoas envolvidas no processo de construção da aprendizagem e das ações”. Como se faz sempre em processos de inovação, é necessário ao fim do ciclo avaliar os processos e resultados.

Na PEADS, a avaliação é completa: feita por todos e sobre todos, e indo além dos meros conteúdos programáticos tradicionais para as emoções, o avanço em competências socioemocionais, tanto dos alunos quanto também dos professores. Dessa avaliação podem e devem participar também todos os membros da comunidade que se envolveram no processo. O objetivo, muito mais do que atribuir uma nota externa a cada aluno, é realmente refletir sobre seu desenvolvimento e sua contribuição social.

A PEADS é uma proposta educacional que entende a escola como parte pulsante da comunidade, que com ela dialoga e constrói um novo futuro; e entende os alunos como pesquisadores e transformadores de seu espaço. Seu modo de agir é inovador, como também é a ideia de sistematizá-lo e ensiná-lo, como o SERTA vem fazendo há anos.

Você pode conhecer outras escolas transformadoras e suas inovações no livro Ser e Agir Transformador, do Escolas Transformadoras, programa da Ashoka e Alana.

Amanda Matta
escrito por:Amanda Matta
Filha de Ogum e Oxum, estudante de tudo que pode nos levar ao reenvolvimento: educação, política, meio ambiente, nutrição, cultura, espiritualidade. Paulistana de sangue mineiro e alma pernambucana.

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