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Meia hora de pesquisa no google, sem muitos filtros, meio que te provam que o veganismo é para todos os paulistanos – ou moradores de grandes cidades ou pessoas com acesso a terras de cultivo. Para que um bife de 220g chegue ao seu prato, de acordo com o Segunda Sem Carne, são emitidos 50kg de CO2 na atmosfera e gastos 792 litros de água limpa, além de 6,6m² de floresta serem desmatados – isso sem contar com a quantidade de remédios, hormônios e alimentos transgênicos que as vacas ingerem e que você passa para o seu corpo.

Os efeitos não são só ao meio ambiente. De acordo com a American Dietetic Association and Dietitians of Canadá, a dieta vegetariana diminui os riscos de diabetes, câncer, fibromialgia, osteoporose e doenças renais. E os animais, claro, agradecem: estudos indicam que eles são sencientes, ou seja, têm consciência e sentimentos, sofrendo sua exploração pela indústria alimentícia.

O veganismo, então parece bom para a pessoa, para os animais, para o meio ambiente, para a sociedade. E não tem nenhuma contraindicação, certo? Mas será que isso também vale para o ribeirinho na Amazônia, o Tuareg do deserto ou o aborígene neo-zelandês?

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Longe dos grandes centros, em comunidades geográfica e economicamente isoladas, existem populações e mais populações tradicionais, de extrativistas, ribeirinhos, indígenas e quilombolas. Nestes locais, só entra dinheiro em momentos específicos do ano e o acesso à alimentação diversificado é reduzido. Nas comunidades ribeirinhas do sul da ilha do Marajó, no Pará, por exemplo, entra dinheiro de duas formas: pelo Bolsa Família ou outros programas sociais ou na safra do açaí, de setembro a novembro. Com esta verba, é impossível comprar comida de fora: eles consomem o que plantam e o que a floresta dá. Para piorar, a terra é alagada, como um mangue, e não há como plantar. Algumas populações também têm, somadas a dificuldades geográficas, questões culturais: a pesca e caça são parte fundamental de rituais espirituais/religiosos.

Alimentação consciente, um estilo de vida

Aí fica a pergunta: será que cabe a nós, que em geral vivemos em uma realidade tão diferente, cobrar destas populações que migrem para uma dieta vegana? Será que não é mais uma forma de colonização econômica e cultural? Vale analisar pelo mesmo prisma que usamos para justificar o nosso veganismo, não?

Bom para a pessoa – a dieta vegana é, de acordo com várias fontes, indicada como a mais saudável. As próprias recomendações do Guia Alimentar do Ministério da Saúde apontam para a diminuição do consumo alimentar de animais e seus derivados. Mas tudo isso tem um porém: é necessário compensar a ingestão de nutrientes com fontes vegetais. Substituir arroz, feijão, carne e leite por açaí com farinha, por exemplo, é tirar do prato um tanto de vida. Se a pessoa não tem acesso a alternativas (e até a suplementos, dado que a vitamina B12 é suplementada para veganos), a dieta se torna pobre.

Bom para os animais – ok, aqui não tem argumentos. Mas há pelo menos uma suavização: em situações em que se caça, os animais não são escravizados, eles estavam livres até o momento de seu abate. E ninguém caça ou pesca todo dia, então a quantidade de mortes é muito diminuída.

Bom para o meio ambiente – de novo, temos a suavização acima. A ingestão de animais é menor e não há indústria envolvida. Assim, diminuímos os prejuízos dos próprios bichos e eliminamos os referentes a processamento, transporte e comercialização. Também não há desmatamento, muitas vezes ocorre o oposto. Floresta sem árvore não tem animais, então é importante preservá-la para que eles não fujam.

Bom para a sociedade – aqui vem uma das discussões mais sensíveis – antropólogos, venham! Cabe a nós dizer se um costume cultural ou religioso deve acabar ou ser alterado baseado em nossa ciência e nossas crenças? No contexto de caça, vida na floresta, é difícil combater o argumento do amor incondicional de todos os seres vivos, que seriam parte de algo maior e dariam sua vida um pelo outro, por exemplo.

“Cream cheese” vegano de castanha de caju

Um segundo nível de discussão pode ser proposto, mas é ainda mais difícil: e as populações que não caçam, compram animais para consumo, mas não tem acesso a alternativas? Isso também é comum em comunidades ribeirinhas, cujos membros só acessam mercados com produtos reduzidos, como carne e leite, mas não leguminosas e vegetais. Encontrar uma forma de fornecer  a estes locais produtos naturais para uma alimentação vegana parece ser uma pauta urgente – e uma ótima oportunidade de negócios, quem sabe.

Referências:
Movimento Segunda Sem Carne
Filme Cowspiracy
Dr. Eric Slywith (nutrólogo)
American Dietetic Association – posicionamento
Guia Alimentar do Ministério da Saude

Amanda Matta
escrito por:Amanda Matta
Filha de Ogum e Oxum, estudante de tudo que pode nos levar ao reenvolvimento: educação, política, meio ambiente, nutrição, cultura, espiritualidade. Paulistana de sangue mineiro e alma pernambucana, vive entre uma comunidade ribeirinha no Pará e uma tentativa de agrofloresta no interior de São Paulo.

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