Nosso Diário

O dia em que cheguei em casa sem morangos

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Ou o dia em que adicionei o quintilionésimo quadragésimo segundo item a minha enciclopédia feminina. 

Por Emiliano Roadwalker.

Era tão somente mais um destes dias em que, sem ter o que, me infligia a culpa de não fazer nada. Dias bobos como esse, são para mim, perfeitos dias de trabalho, quase um chamado, convidando para sentar-me ao sol quente e escrever qualquer coisa no meu pequenino dispositivo de comunicação, vulgo telefone, enquanto sorvo um mate e descasco uma laranja. Mas antes de escrever, eu realmente preciso de um assunto, já que sentar e escrever sobre sentar e escrever não é propriamente material tão interessante…definitivamente…mesmo depois de um parágrafo.

Eis que então, surge em cena minha esposa.

A delicia delicada do sol de inverno, de repente, foi interrompida pela sombra nebulosa de minha amada a eclipsar o sol. O astro se fazia notar apenas por brilhantes raios que passavam por entre os braços arqueados pelas mãos impacientes que se apoiavam na fina cintura daquela imponente figura. 
Sua voz é suave em qualquer ocasião, mas em determinadas luas adquire um tom mais loquaz e ao ouvi-la me ponho logo em respeitoso silencio.

Era domingo e ela me pedia morangos com uma elegância e dureza imperial, a mesma que faria brotar os desejados frutos a um só pedido, se assim o quisesse. Minha maior tarefa, no momento, consistia em mudar o rigoroso inverno europeu em que estávamos afim de possibilitar a frutificação dos morangos e assim assumir a demanda. Mas nada poderia fazer eu, vagando de mercado em mercado e feira em feira, fechados ou não, a procura de morangos. E voltei para casa sem os doces frutos primaveris.

Nesta infeliz realidade residia o despertar da fúria de uma mulher então vitima de seus próprios hormônios, ou mais exatamente, hormônios que poderiam causar impróprias vitimas ou… algo parecido.

 Nada poderia convencê-la. De argumentos aristotélicos a dialética socrática, nada resultara bom efeito, seja quando propus outro fruto ou mesmo chocolate, aquele que sempre faz falta depois da meia-noite e que, agora, estava ao alcance de um pedido. Mas a cada investida minha novamente voltava a recuar a um canto entre vociferações carregadas de:

– …irresponsável, sempre propondo alguma ideia infantil ou aparecendo com meias-soluções, nunca faz o que eu peço direito…

Mantive um auto controle gerencial, visto o tempo que me dera alguma experiência administrativa. Ao longo de sua argumentação, apenas ouvia o ruído insistente de palavras soltas enquanto admirava aqueles olhos semicerrados que sempre chamam minha atenção quando conversamos a serio, percebia sua entonação vocal tão soberana e meiga, sua longa franja que cai insistentemente sobre estes olhos semicerrados e, mais do que nunca, desejo o momento seguinte as nossas “brigas”.

Mas é cedo e eu ainda tenho o compromisso, e mais do que isso, o prazer de ouvir aquele canto de sereia incompreensível e de continuar a admira-la, enquanto vagamente percebo que ela me chama de “imbecil”. E assim me resigno a perceber, como pela primeira vez, sua beleza acesa pela exaltação e, tão logo o percebo, dou um sinal languido de desculpas no semblante debochado. Um doce beijo sem morangos era a única maneira de resolver, qualquer que fosse a nossa questão de modo razoável. Meus olhos suplicavam pelo nosso entendimento e ela percebia, apenas precisava acabar a frase, dar um longo suspiro e me beijar sofregamente.
E heis o meu triunfo. Um longo beijo de cinema é a duração da minha gloria, e um dia de carinhos e paz, nosso deleite.

Recapitularei esse episódio quando oportuno.
Lembre-se!

# Quintilionésimo quadragésimo segundo item, 
Art.1 “Uma boa discutição sempre resulta”,
Art.2 “Enquanto você a ouve tem oportunidade de dar um mental play no seu mental player e tocar um Barry White enquanto admira quão bonita ela é”, 
Art.3 “Qualquer historia que acabe em beijo vale apena”.

Fim.

Jardim do Mundo
escrito por:Jardim do Mundo
Normal ou não, um clichê da sociedade contemporânea ou um casal unido por amor, afinidades e desafinidades, que transforma arte e ciências em pequenos projetos domésticos. Criar um jardim onde antes não se imaginava poder, provar de inúmeras receitas que são também oportunidades, utilizar e reutilizar ao máximo, aprender e aplicar princípios que projetam um estilo de vida mais simples e otimista, acreditando que podemos fazer algo de bom ou de belo enquanto fazemos algo para nós e não apenas para nós.

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