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Literatura Ambiental: Thoreau e a vida nos bosques

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No ano de 1817, nascia na cidade de Concord (EUA) um menino, que se tornaria mais tarde um homem questionador das regras sociais e fonte de inspiração para os movimentos ecologistas. Henry David Thoreau, filho de um fabricante de lápis e de uma mãe amante de caminhadas campesinas, sempre se demonstrou muito introvertido e reflexivo, o que lhe trouxe certa fama de desajustado, quando estudava em Harvard. Nada confortável em uma sociedade na qual enxergava uma porção de incoerências, foi desenvolvendo um profundo anseio de compreender as necessidades vitais do ser humano, seus aspectos morais e práticos. Assim, certo dia, decidiu colocar em prática suas filosofias, relatadas em um livro

Walden e seu convite para adentrar à floresta

Em Walden ou a vida nos bosques, o pensador norte-americano nos convida a conhecer sua experiência de dois anos morando sozinho nos bosques de Concord . O desejo de realiza-la surgiu a partir de profundas reflexões a cerca dos rumos que a sociedade estadunidense passava naquele momento – industrializando e capitalizando-se.

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Buscando resguardo junto à natureza, Thoreau queria reencontrar os sentidos mais básicos da vida, filtrando de seu cotidiano tudo aquilo que se mostrasse supérfluo, rejeitando comodismos, automatismos e práticas, que para ele, tornava a sociedade alienada. Para isso, encontrou um espaço agradável, à beira do lago Walden (que dá título à sua obra) e começou a construir uma cabana com matéria-prima do próprio local e auxílio de poucas ferramentas que carregou consigo ou pegou emprestado de trabalhadores que viviam próximos.

Como foi esse período na floresta

Estabelecido em seu simples abrigo que se restringia à um único cômodo, com chaminé, uma mesa e uma cama, começou a repensar cada ação de seus dias. A primeira grande mudança que percebeu, foi o retorno às necessidades básicas para se viver. Sua cabana fornecia proteção contra as intempéries do tempo e animais da floresta; para alimentar-se, percebeu que seria mais interessante iniciar o cultivo de alguns alimentos para complementar a caça e coleta. Após as colheitas, a quantidade de alimento era consideravelmente superior à sua necessidade, o que possibilitou trocá-los por outros artigos no vilarejo mais próximo, o qual visitou poucas vezes ao longo do seu retiro.

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Das crítica sobre as ideias de Thoreau

Chama muita atenção nas observações de Thoreau, a interpretação visionária de muitos aspectos sociais, econômicos e ambientais em relação à sociedade da época. Em sua escrita, que carrega um forte tom pessoal e experimental, como alguém que escreve para se expor a si, o autor toca em temas muito contemporâneos, como a falta de representatividade política, vegetarianismo, sociedade voltada para aparências e a devastação ambiental resultante do desenvolvimento tecnológico e econômico. Esses temas são diluídos ao longo do livro, por meio de reflexões que o autor coloca de forma orgânica e poética, e que como bem define Virginia Woolf “(lendo-o) temos a impressão de contemplar a vida por uma lente de aumento muito forte”. Não por acaso, costuma-se acompanhar ao final da obra, um famoso ensaio chamado Desobediência Civil, onde o autor expõe críticas mais diretas e flerta com ideias anarquistas.

Walden, é daqueles livros que nos tiram da inércia e trazem inspiração para repensar os dias atuais, onde um número cada vez maior de pessoas buscam uma forma alternativa de se relacionar em sociedade e com a natureza.

Thoreau, Transcendentalismo e o retorno

Thoreau, que contribuiu muito com o movimento filosófico transcendentalista (corrente filosófica do século XIX, que buscava contrapor o racionalismo completo e valorizar as relações intuitivas), buscou colocar em prática, experiências que lhe trouxessem um entendimento mais simples e claro da vida. Passado esse tempo as beiras do lago Walden, ele voltou a viver em sociedade de maneira atuante, na luta pelo abolição da escravidão e difundindo o pensamento crítico. Mudar-se por dois anos para os bosques não foi um ato de resignação e isolamento da sociedade, e sim uma maneira de se reconectar com aquilo que ele dizia estar inato no ser humano. Em suas palavras: “fui para a natureza enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se eu não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, e não descobrir, quando viesse a morrer, que eu não tinha vivido”.

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Mateus Costa
escrito por:Mateus Costa

Sou um mineiro, com pai fluminense, que mora em São Paulo e que não pertence a lugar algum, ou a todos eles. Na busca de me definir, preferi ser do mundo, pois é dele que me vem toda a inspiração para viver. Nele encontrei a literatura, a arte, a filosofia e a ciência que me fizeram ultrapassar as limitações de espaço e tempo. Se me perguntam o que faço ou do que gosto, digo que sou um observador e que aprecio o silêncio que envolve toda a simplicidade do mundo. Recentemente me (re)apaixonei pela natureza, confesso que não consigo mais esquecê-la.

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