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Aqui na internet volta e meia aparece alguém falando sobre produtos de higiene e cosméticos naturais feitos em casa, super bons e baratos. A gente vive esbarrando em receitas desse tipo, né? Não sei vocês, mas eu acho super empolgante essa ideia. Fazendo nossos produtos de higiene em casa a gente economiza e evita montes de conservantes e corantes. Além de poder escolher cada um dos ingredientes que vai usar, respeitando a nossa individualidade e nossas preferências.

Mas será que vocês já pensaram de verdade na possibilidade de produzir os próprios produtinhos? Ao menos os que mais se usam?

Acredito que pra muitos pareça difícil, pouco prático, mesmo que boa parte dos ingredientes já estejam na cozinha.

Pois vou dividir um fato que constatei há alguns dias: os poucos produtos de higiene e alguns cosméticos que uso diariamente, com exceção da pasta de dente, foram todos elaborados por mim. E estou satisfeitíssima com o resultado deles.

Sabonete cremoso feito com cinzas.

Meu processo com os cosméticos naturais

Comecei sem pretensão tentando fazer sabonete a partir de óleos vegetais e hoje faço o meu shampoo, o condicionador, o sabonete, desodorante, hidratante, esfoliante. Usando o mínimo de sintéticos, buscando ingredientes de procedência confiável, respeitando as necessidades e particularidades do meu corpo. E com isso posso dizer que conheço praticamente todos os ingredientes que tocam a minha pele. Escolhi cada um deles.

Minhas primeiras anotações de experiências com saboaria natural e creminhos são de 2009, faz um bom tempo que venho estudando isso. Experiência ajuda mas não é tudo, e pra chegar a algum lugar sempre é necessário dar o primeiro passo e todo mundo pode! Comecei sem saber nada, só com ajuda do Sr. Google e muita curiosidade. Depois entrei na graduação em química, que me ajudou um pouco nessa busca, mas foi uma ajuda bem menor do que eu esperava. Acredito que minha base da permacultura, de procurar sempre o caminho mais natural, optar por usar o que existe perto de mim, a noção de ser responsável pelas minhas escolhas, isso foi mais importante nesses anos de estudo do que o conhecimento técnico.

Infusão de flores de calêndula da horta em óleo de algodão. Depois virou um desodorante super delicado e eficiente.
Infusão de flores de calêndula da horta em óleo de algodão. Depois virou um desodorante super delicado e eficiente.

Do que o nosso corpo precisa?

A indústria nos oferece uma infinidade de potinhos, como se cada micro parte do nosso corpo tivesse uma super necessidade especial. Ok, é um pouco assim, mas só um pouco. Há questões de pH, sensibilidades específicas de algumas regiões do corpo e também de cada ser em particular. Mas vamos tentar listar o que a nossa pele precisa de verdade no dia a dia? Limpeza, condicionamento, hidratação, algo que limite o cheiro de suor… Avançando um pouco, dá pra colocar na lista também uma ajudinha na regeneração celular, um perfuminho. Que mais? Não é muito, né?

Faça você mesmo: Pomada natural para barba

Testando a consistência do shampoo. Sem lauril, sem parabenos, sem corantes. Com extratos vegetais, óleos essenciais e a pureza do processo. Low poo!
Testando a consistência do shampoo. Sem lauril, sem parabenos, sem corantes. Com extratos vegetais, óleos essenciais e a pureza do processo. Low poo!

Vai ser mais barato que comprar as coisas prontas na farmácia?

Provavelmente sim, mas depende. É possível fazer formulações ótimas só com coisas que encontramos na cozinha, mas depois de um tempo a gente começa a querer incrementar os preparos.

Pra esses incrementos gasta-se um pouco investindo em matéria prima de qualidade. A gente vai ficando curiosa pra conhecer uma manteiga vegetal certificada ou um óleo essencial milagroso que serve, como diriam Los Hermanos, “pra te curar da tosse e do chulé, pra te botar de pé”. Mas os insumos caros são poucos e opcionais, mas muito eficientes, o que faz valer o preço.

E há vários ingredientes que são baratíssimos, pra compensar. Duas coisas que uso muito, polvilho doce e goma de linhaça. Custo ínfimo, benefício impagável.

Presente prazamiga em um inverno passado: hidratante labial.
Presente ‘prazamiga’ em um inverno passado: hidratante labial.

Outra lógica

Com o passar do tempo e meu amadurecimento nessa área comecei a pensar diferente na hora de idealizar um cosmético natural. Descobri que é melhor focar nas necessidades do corpo, não no produto que queremos substituir. Por exemplo, minha necessidade não é de um creme, uma manteiga ou um gel hidratante. Preciso que a minha pele se mantenha hidratada. Ponto.

Parece a mesma coisa, mas não é. Isso abre o leque de possibilidades e faz a gente pensar fora da caixa. Também ajuda a diminuir o número de produtos necessários, pois a gente começa a ver que uma formulação bem feita serve pra várias finalidades.

Um exemplo: Fiquei anos tentando fazer um hidratante que funcionasse bem pra minha pele oleosa. Testei muitos tipos de base mas nunca havia considerado usar um óleo pra isso, acho que por preconceito, já pensando no efeito gosmento que a maioria dos óleos causa em mim. Eis que descobri o óleo vegetal de rosa mosqueta, e hoje tenho sempre comigo um frasquinho dele. É ótimo pra vários problemas da pele, regenerador, cicatrizante, super hidratante e deixa a pele quase sequinha depois de um tempo. Bem o que minha pele oleosa precisa. A ele adicionei algumas gotas de óleos essenciais restaurativos, calmantes e antissépticos. Aí uso essa misturinha pra tudo. Passo em volta dos olhos pra tratar marcas de expressão. Passo nas mãos pra hidratar. Nos pés quando começa uma coceirinha estranha. Uso pra fazer automassagem no rosto antes de dormir quando estou muito ligada e precisando relaxar. Passo nos machucados pra ajudar a cicatrizar. Mil utilidades num frasquinho de 20mL.

Outro ponto que é preciso ter em mente antes de entrar no mundo dos cosméticos naturais: Nós somos muito acostumados às texturas que o mundo sintético nos trouxe. Cabelos super sedosos, sabonetes com espuma abundante, cremes com toque de seda. Por trás de todas essas sensações há muitos ingredientes sintéticos agindo. Não que tudo o que há de sintético seja abominável. Mas é bom parar pra refletir que produtos com uma base natural dificilmente terão uma textura parecida com essas aí. E muitas vezes teremos que fazer uma escolha.

3 Receitas simples de sabonetes artesanais à base de ervas

Meus desodorantes. Um em creme que fiz com o extrato de calêndula, e outro em pó, pra dias amenos.

Tá, já escolhi. Agora o que preciso pra começar?

Realmente não precisa ser um químico pra fazer essas coisas em casa, pra si. Mas precisa de bom senso, pesquisa, boa matéria-prima e paciência, não necessariamente nessa ordem:

  • É necessário MUITO bom censo pra saber escolher fórmulas e ingredientes, fazer substituições e imaginar o que pode dar errado (tem muita receita louca por aí, minha gente!). Lembre-se que os testes sempre serão feitos no nosso próprio corpo, e que riscos sempre existem. É necessário se auto observar pra evitar alergias. E saber das possíveis reações adversas, por exemplo, que há ingredientes que causam queimaduras na pele se expostos ao sol.
  • Por isso também que pesquisa é fundamental para fazer um produto realmente bom. Conhecer a fundo os ingredientes que vai usar e a interação entre eles é básico. Sim, estudei bastante para chegar em fórmulas de cosméticos naturais satisfatórias. Vai tempo nessa pesquisa. Mas vale cada minuto investido.
  • Sobre a matéria-prima, nem precisaria me estender, né? Confesso que no começo usava coisas de segunda linha, de procedência duvidosa, mas por mais sem grana que a gente esteja isso não vale a pena, acredite. Normalmente a gente já economiza horrores fazendo essas coisas em casa, então bora abrir a mão nessa hora abençoada de escolher os ingredientes. Outra coisa é dar preferência para os produtos que são produzidos perto da gente, que sabemos de onde veio, por quem foi feito. Moro numa cidade pequena de base rural e consigo algumas coisas como resina de pinheiro, cera de abelha e álcool de cereais direto com os produtores. Também me dou ao luxo de cultivar todas as plantinhas que uso nas minhas fórmulas, e isso é fantástico. Aprender a procurar e inventar é essencial.
  • Outra coisa necessária: paciência. Por mais que a gente olhe um super tutorial que ensine a fazer uma receitinha superfácil, quando a gente bota em prática pela primeira vez é bem provável que o resultado seja uma gororoba estranha. A gente usa só pra não desperdiçar os ingredientes, mas preferiria jogar tudo fora. Sim, isso é bem comum e a frequência de acontecer isso não diminui muito depois de anos nessa vida. É necessário fazer, anotar, testar, definir o que pode ser melhorado e começar de novo. Muitas vezes. Até que uma hora a coisa fica muito boa!
Os sabonetes que uso hoje: 70% polpa de abacate do vizinho ^^
Os sabonetes que uso hoje: 70% polpa de abacate do vizinho ^^

pra resolver um certo problema

pra resolver um certo problema

O que dá pra fazer hoje?

Bom, peço desculpas a quem leu esperando encontrar receitinhas bacanas, não é esse o foco hoje.

Com esse texto queria chamar atenção pro fato de que são poucas as necessidades reais do nosso corpo em relação a higiene. E que é muito possível ser responsável pelos produtos que vão suprir essas necessidades. Se não for possível agora começar a fazer, ao menos pesquise sobre eles, leia os rótulos, entenda os mecanismos, como funcionam, o que é bom pro nosso corpo, o que não deveríamos usar… Procure pessoas por perto que tenham esse mesmo interesse, divida experiência, busque por marcas legais ou produções artesanais bem feitas.

Como permacultora acredito que nós não podemos ficar alheios ao que consumimos. Acho que deveríamos tentar participar de todos os nossos processos diários, ou ao menos saber minimamente sobre eles, de onde vêm nossa comida, nossas roupas, enfim. Para fazer os próprios produtos de higiene há segredos, há dedicação, há que se ter cautela. Mas quando se tenta algumas vezes e enfim se descobre uma fórmula porreta de boa, fácil e barata, a gente ganha muito. Ganha algo muito maior do que o valor da economia doméstica praticada e da satisfação pessoal. A gente se empodera. E isso é maravilhoso.

PS.: Um beijão pra Thais que, talvez mesmo sem querer, me incentivou a escrever esse texto, e tem me dado força incrível nesses tempos incertos. Gratidão, minha irmã.

Cristiane Correa
escrito por:Cristiane Correa
Permacultora e química. Primeiro, o respeito à natureza, pertencimento a ela e a seus ciclos. Depois a compreensão do funcionamento das coisas, e o reconhecimento de que quanto mais natural, melhor. Muito melhor. Num passado distante fui publicitária, e trago desse tempo o prazer de escrever, fotografar e propagar boas ideias. Nesse contexto, tenho estudado assuntos como a fitoterapia, cosméticos naturais, plantar a própria comida, o impacto das nossas escolhas e o empoderamento para tocarmos a nossa vida sem consumismo. Gostou? Vem junto!

9 Comentários

  • lindo caminho escolhido Cris! estou com você nessa busca também, já encontrei muita coisa pra usar mas sempre tem algum detalhezinho pra aperfeiçoar né? já tentou juá em pó ou açafrão para a limpeza dos dentes? o Juá já usei bastante, mas o açafrão só ouvi comentários 🙂

    • Oi, Wanu! Que bom te rever por aqui! É um caminho bem bonito mesmo, gratificante. Juá eu tenho aqui, misturei com alguns óleos essenciais pra melhorar o resultado e também pro gosto, mas confesso que ainda tô meio assim. Uso as vezes, mas quando vejo tô de novo na pasta convencional. Açafrão ainda não testei. Tô com ele plantando aqui na horta. No inverno veremos como fica

  • Muito bacana essas reflexões sobre cosméticos caseiros e naturais. Estou começando me aventurar agora, fiz uma receita de sabonete que rendeu muito mas escolhi materiais ruins, agora é tentar melhorar na próxima receita. Faço também os produtos de limpeza da casa, com receitas que via aqui no jardim!

  • nossa cris, que artigo mara! tenho muita curiosidade e vontade em começar a fazer meus cosméticos… estou indo devagar, adquirindo umas coisinhas por mes (ja tenho alguns oleos essenciais), mas ainda tenho muita dúvida e receio em começar, existe muita coisa rolando na internet, as vezes da um pouco de medo e incerteza com relação a eficácia e segurança do produto… adoraria se vc, que tem mais conhecimento e muita experiencia, dividisse conosco algumas boas receitas (principalmente essa que tu citou, com oleo de rosa mosqueta para pele oleosa), para quem quer começar essa pratica e não tem naada de experiencia usar como um norte… beijos! grata

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