Bike

Como educo meu filho em cima da bicicleta

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Dias atrás me reuni com as outras famílias que participam da creche parental do Renzo. O objetivo desse encontro era conversarmos sobre as atividades pedagógicas que desenvolvemos com as crianças. Afinal, adotar uma educação alternativa para nossos filhos não significa estar alheio aos estímulos e aprendizagens de que as crianças necessitam. Envolve também muito estudo e troca de conhecimentos.

Somos cinco famílias, cada uma com vivências, conhecimentos e interesses diferentes e específicos. E cada família contribui com o que pode da melhor maneira possível para enriquecer o cotidiano das crianças com experiências diversas. Nas minhas participações, é quase impossível não falar de bicicleta. Tenho me sentido muito motivado a incluí-la cada vez mais na rotina do meu filho e, consequentemente, estender essa possibilidade às outras crianças, porque as respostas que obtenho dele são muito positivas.

Toda vez que saio para pedalar com o Renzo, o passeio se torna uma aula. Busco as referências das ruas para introduzir assuntos e ensinar algo a ele. Dessa forma, ele aprendeu a contar até dez contando quantos carros a gente ultrapassa enquanto eles estão engarrafados. Também aprendeu cidadania e leis de trânsito, pois já percebe que o sinal vermelho significa que os carros devem parar para nós atravessarmos, e o verde, que devemos aguardar enquanto os carros passam. Às vezes conversamos sobre relações de oposição: caminhão grande x carro pequeno. Sinal em cima x faixa de pedestre embaixo. Barulho x silêncio. Outra possibilidade é lidar com adjetivos, formação de frases etc.: cachorro grande, cachorro bonito, cahorro do moço. Logo, o cachorro do moço é grande e bonito. Daí a ele formar suas próprias frases é um pulo.

As cores são uma divertida descoberta. Além do vermelho e verde do sinal (amarelo apareceu poucas vezes para ele fixar), a variedade de cores dos carros transforma-se em uma grande brincadeira: Onde está o carro vermelho? Você viu um carro azul? Qual a cor do ônibus? E ele vai respondendo, apontando, dizendo “Lá, o carro verde está lá!”

Os assuntos trabalhados nessa grande aula são bastante variados: já falamos de vozes de animais, de acordo com os bichos que avistávamos. Falamos de plural e singular – ele já assimilou que às vezes vê uma bike, às vezes vê duas bikes, e está começando a perceber que pode ver três, quatro… Outro ponto diz respeito à educação com o próximo: nós damos bom-dia a outros ciclistas, cumprimentamos, damos tchau. De vez em quando temos que lidar com os imbecis, os que param o carro em cima da ciclofaixa. Nesses momentos eu digo “por favor”, que tirem o carro, e quando acontece de respeitarem meu pedido, digo “obrigado”, e ele repete. Ou ainda: sensações e sentidos, como quente, calor, frio, vento (“papai, ventinho gostoso!”).

Sim, meu filho poderia aprender tudo isso dentro de uma sala, confinado entre quatro paredes. Seria padronizado e classificado de acordo com parâmetros imutáveis há décadas, embora o mundo, a sociedade, os relacionamentos e tantos outros fatores transformam-se a cada dia. No passado foi a instituição escola que ensinou. Agora, cada vez mais, somos nós que precisamos ensinar à escola. Por isso e motivos mais que prefiro continuar educando com a bicicleta.

ps. Renzo tem pouco mais de um ano e meio.

Paz, amor e bicicleta
Niterói, agosto de 2015

Raro
escrito por:Raro
Tem 34 anos, carioca do Cachambi, pai do pequeno Renzo e marido da Bu. Já brincou de ser e fazer muitas coisas, e aguarda novas experiências. Anda de bicicleta pelas ruas da Região Oceânica de Niterói. Sonha em viajar o mundo e mostrar ao filho que há coisas mais valiosas que “ser alguém na vida”.

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